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Endividamento de aposentados bate recorde; débito é de R$ 94 bilhões

O endividamento dos aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) bateu novo recorde. Com o desemprego, a queda na renda familiar e o crédito mais caro, sobrou para os segurados ajudarem nas contas da casa, usando, cada vez mais, os empréstimos consignados. Este ano, a modalidade disparou 9,4% e os beneficiários já devem R$ 94,1 bilhões aos bancos, divulgou ontem o Banco Central.

ão à toa, a violência financeira é uma das formas mais comuns de abusos contra idosos, segundo relatório da Central Judicial do Idoso (CJI) do Distrito Federal. As agressões foram constatadas em 61,7% dos atendimentos do órgão, sendo 30,3% por causa de dinheiro, já que, em alguns casos, familiares forçam os aposentados a contraírem empréstimos consignados.

Com a aposentadoria comprometida com o orçamento doméstico, o aposentado Edson Nascimento, de 66 anos, entrou para a estatística das operações de crédito do BC. Ele não encontrou outra saída além de recorrer ao consignado para quitar dívidas e pagar despesas médicas. Desde novembro do ano passado, pegou dinheiro emprestado duas vezes. Hoje, a dívida é de R$ 20 mil. Todo mês, Edson desembolsa R$ 1 mil do benefício. “Não sei quanto vou pagar de juros, mas terei descontos pelos próximos dois anos”, explicou. Além das contas de casa e com medicamentos, ajuda a filha que ficou desempregada. “Ela não tem como arcar com os próprios gastos, sobra pra mim”, desabafou.

Em 12 meses, o saldo devedor dos aposentados e pensionistas cresceu 12,4%, enquanto, na média, as operações totais de crédito às pessoas físicas avançaram 4,6% no mesmo período, para R$ 1,530 trilhão. Em junho, especificamente, o aumento foi de 0,3%. De acordo com o Banco Central, somadas todas as operações de crédito, incluindo pessoas físicas e jurídicas, o saldo atingiu R$ 3,13 trilhões, o que representou recuo de 0,5% em junho.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Túlio Maciel, explica que é raro ter queda no crédito em junho, e isso só ocorreu uma vez, em 2001. “O recuo é reflexo da baixa atividade econômica, de menos estímulo para tomada de crédito e de menor renda das famílias”, justifica. No primeiro semestre de 2016, a retração é de 2,8%. Em igual período do ano passado houve alta de 2,7%.

A disparada do consignado aos aposentados é vista como um dado positivo, conforme Maciel. “É um crédito de qualidade, com juros mais baixos”, explica o técnico do BC. A aposentada Cecília Pinto da Fonseca, de 66, aproveitou essa vantagem e fez um empréstimo para quitar outra dívida, mais cara. “Comprei algumas coisas para meu neto, mas a situação saiu do controle e não tinha como pagar”, relembra. O consignado fez a renda mensal, de R$ 880, encolher R$ 200, dinheiro que faz falta no fim do mês, pois todo o orçamento ficou comprometido. “Só vou conseguir pagar tudo para o banco no ano que vem”, lamenta.

Na opinião de Miguel José Ribeiro de Oliveira, diretor-executivo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), os dados divulgados pelo BC mostram que o cenário continua de dificuldade. “O crédito está reduzido, os prazos estão mais curtos e as taxas de juros continuam em alta, apesar da manutenção da Selic em 14,25%.

Sobre o aumento nas operações de consignado dos aposentados, o diretor da Anefac destacou que isso vem ocorrendo por dois motivos: “É uma linha mais barata, com juros mais baixos, então há uma preferência em tomar esse tipo de crédito. Mas também tem a ver com risco. Os bancos estão privilegiando as operações com menos risco e o consignado tem recebimento garantido porque é descontado em folha”, disse.

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